A arte-entretenimento-arte é capaz de fazer a ponte nas cidades partidas?
Desde o samba, desde as patricinhas se acabando na pista ao som de "burguesinha" do Seu Jorge, eu me pergunto até que ponto, e de que maneiras, esse diálogo se faz possível
Ontem, no show do Criolo, essa reflexão se impôs com mais força.
Por que ele é poderoso e é claramente um homem com uma missão: "Amor sim, preconceito não. Levem essa mensagem", dizia ele, com seu jeitão messiânico.
E ele ja tem uma seita que sabe os salmos e evangelhos de cor (de coração?). As pessoas estão ouvindo, de fato, a sua mensagem ou estão apenas se deleitando com letras inteligentes e musica muito bem feita?
Por que o que não dá pra negar é a tensão nesse diálogo. Quando Criolo canta numa casa do Arpex (pra rimar com sua Grajaúex da periferia brutal de SP, de onde ele vem), para uma platéia cool e hypada do Rio, essa tensão explode, mesmo que a mensagem seja de amor. POr que a mensagem é critica e tem origem e endereço certos; e remetente e destinatários estão, mesmo, em mundos muito diferentes. Fica claríssimo quando ele pede muitas palmas aos garçons, a tiazinha do banheiro e todos os outros seres invisíveis do "proletariado" e completa: "POdia ser papai e mamãe".
Não. Ali, naquela platéia do Arpex, isso parece impensável. Será?
Quando o cara, voltando de sua terceira incursão ao banheiro (you know what I mean), canta com todas as forças "E covardes são quem tem tudo de bom/ e fornece o mal pra favela morrer/Uns acham que são, mas nunca vão ser/feio é arrastar e nem perceber"
Ou então o outro com um rolex no pulso que vibra ao som de "O dinheiro vem pra confundir o amor, um santo pesado que tá sem andor."
A cidade partida está apenas dentro de nós? Basta querer e nos uniremos todos numa grande nação sem preconceitos? É possivel viver sem eles? Será que o próprio Criolo conseguirá?
Talvez não... Mas, ainda assim, é possível, talvez admitindo a tensão, sua presença e potência, criar um dialogo real entre dois interlocutores que são diferentes sim, inclusive no que significa amar. Talvez nem o amor seja tão universal assim.
E se nossas identidades são tão visceralmente marcadas por nossas origens sociais, resta o diálogo e a reflexão mas sem apagar as diferenças.
Olhe e ouça com atenção por que ele mesmo dá uma solução: "POde colar mas sem arrastar/se arrastar favela vai cobrar/acostumado com sucrilhos no prato/morango só é bom com a preta de lado.
Valeu Criolo! Me emocionei, me deleitei, dancei e estou a refletir... acho que é, afinal, a missão de todo artista.
E mesmo com todas as diferenças com essa moça aqui nascida e criada no Leblon, a gente se encontra nesse lugar comum, maior, por que eu também "tenho orgulho da minha cor/do meu cabelo e do meu nariz/sou assim e sou feliz/Indio, caboclo, cafuso ou criolo/sou brasileiro".
Desde o samba, desde as patricinhas se acabando na pista ao som de "burguesinha" do Seu Jorge, eu me pergunto até que ponto, e de que maneiras, esse diálogo se faz possível
Ontem, no show do Criolo, essa reflexão se impôs com mais força.
Por que ele é poderoso e é claramente um homem com uma missão: "Amor sim, preconceito não. Levem essa mensagem", dizia ele, com seu jeitão messiânico.
E ele ja tem uma seita que sabe os salmos e evangelhos de cor (de coração?). As pessoas estão ouvindo, de fato, a sua mensagem ou estão apenas se deleitando com letras inteligentes e musica muito bem feita?
Por que o que não dá pra negar é a tensão nesse diálogo. Quando Criolo canta numa casa do Arpex (pra rimar com sua Grajaúex da periferia brutal de SP, de onde ele vem), para uma platéia cool e hypada do Rio, essa tensão explode, mesmo que a mensagem seja de amor. POr que a mensagem é critica e tem origem e endereço certos; e remetente e destinatários estão, mesmo, em mundos muito diferentes. Fica claríssimo quando ele pede muitas palmas aos garçons, a tiazinha do banheiro e todos os outros seres invisíveis do "proletariado" e completa: "POdia ser papai e mamãe".
Não. Ali, naquela platéia do Arpex, isso parece impensável. Será?
Quando o cara, voltando de sua terceira incursão ao banheiro (you know what I mean), canta com todas as forças "E covardes são quem tem tudo de bom/ e fornece o mal pra favela morrer/Uns acham que são, mas nunca vão ser/feio é arrastar e nem perceber"
Ou então o outro com um rolex no pulso que vibra ao som de "O dinheiro vem pra confundir o amor, um santo pesado que tá sem andor."
A cidade partida está apenas dentro de nós? Basta querer e nos uniremos todos numa grande nação sem preconceitos? É possivel viver sem eles? Será que o próprio Criolo conseguirá?
Talvez não... Mas, ainda assim, é possível, talvez admitindo a tensão, sua presença e potência, criar um dialogo real entre dois interlocutores que são diferentes sim, inclusive no que significa amar. Talvez nem o amor seja tão universal assim.
E se nossas identidades são tão visceralmente marcadas por nossas origens sociais, resta o diálogo e a reflexão mas sem apagar as diferenças.
Olhe e ouça com atenção por que ele mesmo dá uma solução: "POde colar mas sem arrastar/se arrastar favela vai cobrar/acostumado com sucrilhos no prato/morango só é bom com a preta de lado.
Valeu Criolo! Me emocionei, me deleitei, dancei e estou a refletir... acho que é, afinal, a missão de todo artista.
E mesmo com todas as diferenças com essa moça aqui nascida e criada no Leblon, a gente se encontra nesse lugar comum, maior, por que eu também "tenho orgulho da minha cor/do meu cabelo e do meu nariz/sou assim e sou feliz/Indio, caboclo, cafuso ou criolo/sou brasileiro".
A cidade é uma só. Mas é foda nascer em manjedoura...
ResponderExcluirVocê escreve bem e é sincera. Gostei!
ResponderExcluirO que significa " morango só é bom com a preta de lado." ?
ResponderExcluirTexto muito bom, parabéns!
ResponderExcluirTexto muito bom, parabéns!
ResponderExcluirSeu texto foi ótimo! Parabéns. Não sou de comentar em blogs, mas impossivel nao comentar esse texto maravilhoso.
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