sábado, 29 de outubro de 2011

Reflexões criolas

A arte-entretenimento-arte é capaz de fazer a ponte nas cidades partidas?
Desde o samba, desde as patricinhas se acabando na pista ao som de "burguesinha" do Seu Jorge, eu me pergunto até que ponto, e de que maneiras, esse diálogo se faz possível
Ontem, no show do Criolo, essa reflexão se impôs com mais força.
Por que ele é poderoso e é claramente um homem com uma missão: "Amor sim, preconceito não. Levem essa mensagem", dizia ele, com seu jeitão messiânico.
E ele ja tem uma seita que sabe os salmos e evangelhos de cor (de coração?). As pessoas estão ouvindo, de fato, a sua mensagem ou estão apenas se deleitando com letras inteligentes e musica muito bem feita?
Por que o que não dá pra negar é a tensão nesse diálogo. Quando Criolo canta numa casa do Arpex (pra rimar com sua Grajaúex da periferia brutal de SP, de onde ele vem), para uma platéia cool e hypada do Rio, essa tensão explode, mesmo que a mensagem seja de amor. POr que a mensagem é critica e tem origem e endereço certos; e remetente e destinatários estão, mesmo, em mundos muito diferentes. Fica claríssimo quando ele pede muitas palmas aos garçons, a tiazinha do banheiro e todos os outros seres invisíveis do "proletariado" e completa: "POdia ser papai e mamãe".
Não. Ali, naquela platéia do Arpex, isso parece impensável. Será?
Quando o cara, voltando de sua terceira incursão ao banheiro (you know what I mean), canta com todas as forças "E covardes são quem tem tudo de bom/ e fornece o mal pra favela morrer/Uns acham que são, mas nunca vão ser/feio é arrastar e nem perceber"
Ou então o outro com um rolex no pulso que vibra ao som de "O dinheiro vem pra confundir o amor, um santo pesado que tá sem andor."
A cidade partida está apenas dentro de nós? Basta querer e nos uniremos todos numa grande nação sem preconceitos? É possivel viver sem eles? Será que o próprio Criolo conseguirá?
Talvez não... Mas, ainda assim, é possível, talvez admitindo a tensão, sua presença e potência, criar um dialogo real entre dois interlocutores que são diferentes sim, inclusive no que significa amar. Talvez nem o amor seja tão universal assim.
E se nossas identidades são tão visceralmente marcadas por nossas origens sociais, resta o diálogo e a reflexão mas sem apagar as diferenças.
Olhe e ouça com atenção por que ele mesmo dá uma solução: "POde colar mas sem arrastar/se arrastar favela vai cobrar/acostumado com sucrilhos no prato/morango só é bom com a preta de lado.
Valeu Criolo! Me emocionei, me deleitei, dancei e estou a refletir... acho que é, afinal, a missão de todo artista.
E mesmo com todas as diferenças com essa moça aqui nascida e criada no Leblon, a gente se encontra nesse lugar comum, maior, por que eu também "tenho orgulho da minha cor/do meu cabelo e do meu nariz/sou assim e sou feliz/Indio, caboclo, cafuso ou criolo/sou brasileiro".

domingo, 9 de outubro de 2011

Bolas de sabão e a alegria das coisas inuteis

Desde que voltei com um frasco do homem aranha de bolas de sabão, colocado na bolsa por distração, da festa de aniversário do filho de um ex namorado, comecei minha experiência de encantos inúteis.
Amo bolas de sabão, sempre amei. Acho que pelo mesmo motivo que amo as borboletas. Adoro o jeito leve e suave delas, a forma perfeita, o vôo errante, sua poesia.
Então, não sei bem por que, resolvi ir a minha janela todos os dias e soprar bolas de sabão no mundo.
Que delicia!
Quanto mais me perguntava para quê ou para quem estava a fazer aquilo, e menos respostas razoáveis encontrei, mais meu coração se esquentou.
Seu destino depende das correntes de ar: elas podem voar alto e durante muito tempo, se livres (sabiam?)
ou podem explodir em segundos no encontro com uma solidez qualquer.
Gosto de imaginar que meus vizinhos também se encantam com a visão inesperada delas contra o céu de suas paisagens.
Outras vezes torço muito para que o vento as leve até o patio da escola que mora ao meu lado pra que elas brinquem com seus alunos, sempre em movimento.
Tenho me deleitado com esse ritual diário de inutilidade.
É que percebi que esse vazio de utilidade do meu gesto é recheado de generosidade - não serve mesmo pra nada, só pra enfeitar o céu: o meu, o seu, o nosso.
E foi, então, que acho que entendi um pouquinho o que é a arte.

Acho que aprendi um pouco disso, sem saber que tinha aprendido, com Manoel de Barros, pra quem derramo minha admiração profunda: pra ele que se diz um grande fazedor do nada.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A vida não poupa ninguém
A morte, também.
Uma família inteira ia
enquanto a gente torcia
pra que uma artista agarrasse a vida que tem
e mostrasse, naquele palco, alegria
Paralelos, paradoxos
A vida é assim.
A morte, também.

Para Dani e Amy